A Editora Kotter, atuante desde 2014 em Curitiba, publicou, na última sexta-feira (04), um comunicado em suas redes sociais, justificando o cancelamento do concurso “Prêmio Kotter“, que seria realizado pelo segundo ano consecutivo:
“Pelo nosso compromisso com a idoneidade literária, diante da identificação de inúmeras obras recebidas terem sido geradas por IA e na impossibilidade de identificar com a certeza necessária esse uso, vimo-nos forçados a cancelar o concurso deste ano. Estamos estudando como realizar o concurso, ano que vem, em tempos de IA. Contamos com a compreensão de todos e somos gratos pelas centenas de obras recebidas”.
O objetivo do Prêmio é reconhecer obras inéditas e autorais nas áreas de literatura, filosofia e política.
Nota da Editora Kotter sobre o cancelamento do Prêmio Kotter 2025 (Foto: reprodução/@kotter_editorial/Instagram)
IA nas obras submetidas
A editora não divulgou quais obras foram identificadas com o uso de inteligência artificial, mas, segundo Kotter, cerca de 900 obras foram inscritas no Prêmio Kotter 2025.
Dentre elas, aproximadamente 40 apresentaram sinais evidentes de uso de inteligência artificial, como comentários deixados pela própria ferramenta. Outras 60 obras continham indícios mais sutis, como vocabulário incomum e estrutura narrativa excessivamente regular.
Desafios na identificação do uso de inteligência artificial em textos literários
A avaliação dos textos se mostrou desafiadora. De acordo com o fundador da editora, Salvio Kotter, os principais indícios incluem textos com ortografia e gramática impecáveis, mas com baixo valor literário, além do uso de palavras mais comuns em inglês do que em português.
Também foi observada uma uniformidade estilística que contrasta com a variação natural da escrita humana. A soma desses fatores levou à decisão de cancelar o concurso, diante da dificuldade de garantir a idoneidade das obras inscritas.
O cancelamento do Prêmio Kotter 2025 reacende o debate sobre os limites da autoria em tempos de inteligência artificial. À medida que ferramentas automatizadas ganham espaço na produção textual, o setor literário se vê diante do desafio de preservar critérios de originalidade e identidade autoral.
A editora já sinalizou que pretende reformular o concurso para 2026, com novas diretrizes que considerem o uso de IA. A discussão sobre o papel da tecnologia na criação literária segue em curso e deve permanecer como pauta relevante para escritores, editores e leitores atentos às transformações do campo.
A reflexão sobre autoria em tempos de inteligência artificial não termina com o cancelamento de um concurso, ela apenas começa. Que critérios ainda podem garantir a integridade da criação literária?
