Clarice Lispector: a escritora brasileira que inspira gerações e a cultura pop

Registro de Clarice Lispector Imagem destaque: Escritora lirica Clarice Lispector (Reprodução/claricelispector.ims)

Entre os autores brasileiros que possuem uma presença tão marcante, temos a enigmática e querida Clarice Lispector, com sua prosa introspectiva, fragmentada e profundamente existencial. Ela rompeu convenções literárias e moldou uma voz única na literatura do século XX. Décadas após sua morte, em 1977, Clarice não apenas permanece atual agora, também é cultuada por artistas pop internacionais e nacionais.

Conhecida por frases que parecem sussurrar o inefável, Clarice é uma autora difícil de rotular. Mistura filosofia e cotidiano, metafísica com um café na cozinha, e transforma o silêncio interior em literatura. Sua influência, de fato, atravessa o tempo.

Traduções, reedições e visibilidade global

Com traduções em 32 idiomas e presença em mais de 40 países, Clarice Lispector foi novamente redescoberta fora do Brasil. Editoras como a americana “New Directions” têm lançado versões atualizadas de suas obras com capas modernas e prefácios inéditos, atraindo um novo público.

Esse novo destaque editorial tem ajudado a impulsionar o nome da escritora entre leitores internacionais, especialmente nas redes sociais e no meio artístico. A atriz australiana Cate Blanchett, por exemplo, afirmou durante o Festival de San Sebastián, em 2024, que encontra coragem nas palavras de Clarice diante da incerteza do mundo.

“Vivemos tempos de incerteza. Eu pego coragem, de certa forma, de Clarice Lispector, uma escritora brasileira que é simplesmente genial, cujos trabalhos eu tenho lido recentemente, e ela diz que há certas vantagens em não saber”

Cate Blanchett

De Macabéa ao resto do mundo

Com obras de forte densidade filosófica e personagens femininas que pensam mais do que agem, Clarice Lispector se encaixa curiosamente bem no universo emocional da música pop contemporânea. A cantora neozelandesa Lorde, em entrevista recente, revelou ter se inspirado na autora para compor faixas de seu novo álbum, “Virgin”.

“A maneira como ela escreve o pensamento me inspirou muito nas letras. É como se ela estivesse te contando um segredo.”

Lorde

Álbum “Virgin” de Lorde (Foto: Reprodução/Instagram/@lorde)


Já Olivia Rodrigo, em conversa com a “Vogue”, contou que carrega na bolsa um exemplar de “A hora da estrela”, presente da amiga St. Vincent durante uma turnê no Brasil.

“Estou marcando e anotando no livro inteiro. Ele tem palavras muito bonitas”

Olivia Rodrigo

Olivia Rodrigo conta o que tem na sua bolsa para Vogue (Vídeo: Reprodução/YouTube/Vogue)


Uma escritora pop

Clarice nunca buscou ser popular, tampouco compreendida facilmente. No entanto, sua escrita profunda, carregada de dúvidas existenciais e vazios poéticos, se tornou perfeita para os tempos de frases virais e posts melancólicos. É comum encontrar trechos de “A paixão segundo G.H.” ou “A hora da estrela” circulando no TikTok, especialmente no formato aesthetic.

“Clarice é pop: está nas redes e nas declarações de celebridades da música e do cinema. O crescimento nas vendas dos livros da autora vem acontecendo nos últimos anos, e coincide com os trechos viralizando no TikTok.”

Ana Lima, gerente editorial da Rocco, editora que publica suas obras no Brasil.

Durante a última Bienal do Livro do Rio, “A hora da estrela” e “Todos os contos” estavam entre os títulos mais vendidos. A personagem Macabéa, aliás, virou símbolo nas redes sociais: é citada em posts sobre insegurança, invisibilidade e sofrimento silencioso.

Obras de Clarice

Nascida na Ucrânia em 1920 e criada no Recife, Clarice Lispector lançou seu primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem”, aos 23 anos. Desde então, construiu uma obra que inclui romances, contos, crônicas e literatura infantil, marcada por uma linguagem inovadora e temas como o feminino, o silêncio, a existência e o absurdo.

Entre seus livros mais lidos estão:

  • A Paixão segundo G.H. (1964)
  • A hora da estrela (1977)
  • Laços de família (1960)
  • Perto do coração selvagem (1943)
  • Todos os contos (coletânea publicada postumamente)

Clarice em HQ e no audiovisual

No embalo da redescoberta mundial, a editora prepara para este ano uma adaptação em quadrinhos de “A hora da estrela”, com roteiro de Letícia Wierzchowski e arte de Aline Lemos. Será uma forma de aproximar Clarice de um novo público, sem sacrificar a densidade de sua linguagem.

Esta não é a primeira vez que a obra ganha novas formas: em 1985, Suzana Amaral levou a história de Macabéa para as telas com notável sensibilidade. O filme, estrelado por Marcélia Cartaxo (vencedora do Urso de Prata em Berlim), capturou a essência melancólica do livro, especialmente em cenas marcantes como o monólogo diante do espelho e o trágico desfecho.

Clarice: atemporal e universal

Entre o mistério e a poesia, Clarice Lispector segue provocando, inspirando e desconcertando leitores, famosos ou anônimos. E talvez seja justamente isso que a conecta ao presente: sua escrita não responde, apenas pergunta. E ao fazer isso, continua revelando verdades que nem sempre cabem nas palavras, mas que artistas, leitores e criadores ainda tentam traduzir.

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