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Com nova fábula distópica, TJ Klune confronta Rowling e defende liberdade de leitura

TJ Klune, escritor estadunidense

Escritor estadunidense TJ Klune (reprodução/Instagram/@tjklunebooks)

TJ Klune, escritor estadunidense admirado por fábulas modernas com personagens LGBTQIAPN+ e tramas de inclusão, lança no Brasil seu mais novo romance, “A Vida Entre Marionetes“, pela Editora Morro Branco. Inspirado na clássica história de Pinóquio, o livro inverte a lógica do conto tradicional: um humano, criado por robôs, tentando compreender seu lugar em um ambiente dominado por máquinas.

A narrativa, ambientada em uma realidade distópica, mistura humor e críticas sociais. O livro acompanha uma família não tradicional formada por robôs que vivem escondidos até que um deles é capturado, obrigando os demais a encarar realidades.

“A ideia de “família escolhida” nasce da vivência queer (…) Eu precisei me afastar da minha família biológica e construir uma rede de apoio ao longo da vida. Isso está em todos os meus livros.”


Lançamentos recentes de TJ Klune (Imagem: Reprodução/Instagram/@tjklunebooks)


A trajetória de um autor marcado pela exclusão

Nascido e criado em uma região conservadora no interior do Oregon, Klune entendeu cedo que seria difícil encontrar aceitação em seu ambiente. Ele conta que descobriu ser gay aos 10 anos, no início dos anos 90 e foi rejeitado por familiares pela sua afeição em escrever e ler, sendo que essas paixões acabaram moldando seu futuro.

“Minha mãe e meu padrasto zombavam de mim por gostar de ler e escrever. Tudo aquilo que me dava alegria era visto como algo que podia ser tirado de mim. Mas as pessoas que me machucaram, que deveriam ter me protegido, hoje estão velhas e sozinhas. E, honestamente, é isso o que acontece quando você escolhe a raiva, o preconceito, o ódio.”

Hoje, ele vive em uma cabana isolada em Washington, onde cria mundos mágicos a partir da solitude. Suas obras mais conhecidas como “A Casa no Mar Cerúleo” e sua sequência, “Em Algum Lugar Além do Mar” exploram temas como pertencimento, resistência e o poder transformador do afeto.

Conhecido como “anti-J. K. Rowling”

Lançamentos de novas obras e posicionamentos marcam a carreira de Klune. Em um discurso, ele criticou abertamente J.K. Rowling, escritora de Harry Potter, por seu ativismo contra pessoas trans e o uso de sua fortuna para apoiar grupos que se opõem ao reconhecimento de mulheres trans em políticas públicas no Reino Unido.

Desde então, Klune passou a ser visto como o “anti-J.K. Rowling”, um rótulo que ele não rejeita. Para o autor, boicotar obras da autora britânica é um ato político válido, especialmente para livrarias e editoras com posicionamentos claros. 

Com patrimônio bilionário e envolvimento direto na nova série de Harry Potter da HBO, J.K. Rowling segue capitalizando sobre a própria criação, o que para TJ Klune, exige uma reflexão crítica sobre consumo e responsabilidade.

“É lógico que Rowling vai ganhar muito dinheiro com esse lançamento e, por isso, temos que pensar no que estamos apoiando com o que consumimos (…) Se você é uma bilionária com uma enorme plataforma que usa todo o seu tempo para atacar uma das minorias mais vulneráveis que existem, então você é prejudicial à sociedade”

No entanto, Klune faz um alerta quando o debate chega às mãos das crianças.

Opinião de Klune sobre crianças lendo obras de Rowling

“Nunca se deve arrancar um livro das mãos de uma criança”, diz autor

Durante um evento, um pai o questionou sobre permitir que seu filho não binário continuasse lendo Harry Potter, mesmo sabendo das posições da autora. A resposta de Klune foi direta: É melhor explicar à criança o contexto, mas deixá-la decidir se continuar a leitura ou não. De acordo com o autor, é correto nunca proibir um livro, mesmo quando envolve conflito.

Para Klune, a responsabilidade está mais em educar leitores sobre o mundo além das páginas do que censurar histórias já conhecidas. E é justamente nesse diálogo que ele vê a força da literatura: um lugar onde ninguém precisa pedir permissão para existir.

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